Danilo levava uma vida estável. 10 anos casado e uma amante-coroa no último ano. De repente, perde a mulher, a amante e a faxineira no mesmo dia em que completa 40 anos. Descobre, claro, a tal crise dos 40. Volta a freqüentar a noite. Conhece mulheres estranhas em festas estranhas. Ao mesmo tempo, começa a ter divertidas reflexões sobre seu passado. Era só o começo de uma vida que muda...

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O Ponto de Encontro dos Blogueiros do Brasil


Quinta-feira, Julho 02, 2009  

Transar ou ter cabelos?

A médica abriu a porta e olhou direto para mim na sala de espera. Eu era o único homem lá, o que fazia crescer meu desconforto. Ao meu lado, duas mulheres mais velhas discutiam quem deveria casar com a mocinha da novela. Algumas coisas são sempre iguais nos finais de qualquer novela. Uma delas é que todos os personagens bons se casam ou arrumam um parceiro legal no final. Não gosto desses finais exatamente porque não é o que acontece na vida real, não com todo mundo. Por que o mocinho da história, que sofreu a história toda, só fica feliz quando conquista a mulher mais bonita no último capítulo? Será que solteiros ou separados ou divorciados também não podem ser felizes para sempre? Como sabemos quando é o último capítulo da vida real? A tal doutora era uma mulher alta, bonita, com longos cabelos castanhos. Usava um avental branco, parcialmente fechado, por cima da roupa. Atraente, arriscaria dizer que tinha uns 30 anos.
"Sou eu."
Anunciei automaticamente, rindo de mim mesmo em seguida. Entrei na sala e fechei a porta. Ela já me esperava em sua mesa, fazendo cara de médica. Sua sala era pequena e discreta, com poucos toques pessoais. Acho que ela não queria expor sua intimidade para nós, os pacientes. Os móveis eram todos de madeira cerejeira e pareciam novos. Sua mesa estava quase vazia e brilhava. Havia apenas o telefone branco, impecavelmente limpo, um porta-canetas de acrílico transparente (com uma caneta vermelha, uma azul e uma preta, todas novas, e uns dois ou três lápis quase inteiros e cuidadosamente apontados), um bloco de receitas, algumas folhas de papel sulfite em branco, um carimbo com o nome da médica e seu número de registro e um livro qualquer sobre medicina no canto. Ela devia ser excepcionalmente metódica e organizada. Além da mesa e das cadeiras, havia também uma estante com livros, alguns enfeites, uma bonequinha de porcelana pequena e um porta-retrato bem no centro. Era uma foto dela, vestindo um elegante sobretudo preto, calça preta, sapatos pretos e até um gorro preto de lã. Estava abraçada carinhosamente a um homem de boa aparência que devia ter mais ou menos a mesma idade e estava vestido no mesmo estilo. Ao fundo dava para se ver o que deveria ser um castelo europeu. Pela aliança no dedo dela, o cara devia ser seu marido. Não pude deixar de notar a calvície acentuada que tomava conta de sua cabeça.
A Dra. Isabela Napolinna foi recomendada por um amigo como uma dermatologista extremamente competente, especialista em calvície. "Se tiver jeito, ela dá um jeito", disse ele olhando fixamente para minha cabeça. Nunca havia imaginado que dermatologistas também cuidavam de homens carecas. No meu caso, de homens tornando-se careca.
"Em que posso ajudar?", perguntou, com um jeito meio burocrático, depois que me acomodei e nos cumprimentamos. Eu podia ter dito na lata que queria saber se ainda era possível salvar meus cabelos e, quem sabe, recuperar uma parte dos que se foram nos últimos anos. Não tive coragem. Tentei fingir que era menos careca do que realmente era.
"Bom, é a primeira vez que venho numa dermatologista (verdade, embora fosse uma informação desnecessária neste contexto). Foi um amigo que me recomendou seu nome (idem). É que eu tenho tendência para perder os cabelos, como se ela não pudesse notar isso por si mesma com uma simples olhada (notei ela observando minhas entradas na cabeça nesta hora) e eu queria ver com você se existe alguma coisa que eu posso fazer para diminuir isso". Terminei a frase com um sorriso envergonhado, num tom mais baixo do que comecei, como se estivesse fingindo que não tinha dito o que tinha acabado de dizer.
"Você está perdendo cabelo desde os seus 20 anos mais ou menos. Devia ter procurado um tratamento médico há muito mais tempo."
Ela falou, sorrindo outra vez, enquanto caminhava na direção da minha cabeça. Parou atrás de mim e ficou, com as pontas dos dedos, examinando a calvície adiantada que ameaçava tomar conta da minha cabeça. Passaram-se alguns segundos. Pareceram longos minutos.
"Esta parte aqui na frente, onde você tem estas entradas, não tem mais jeito." Tudo bem, pensei, não foi por causa disso que vim aqui.
"Aqui atrás, onde você tem estes buracos, dá para resolver, sim", ela continou.
Buracos? Será que ela estava exagerando? Ela me examinou por mais alguns segundos e logo depois, para meu alívio, voltou para a cadeira e me explicou, calmamente, como é que dava para resolver, enquanto preenchia uma receita. Não pude deixar de lembrar da careca do marido dela, enquanto me perguntava porque ela não resolveu os buracos do próprio parceiro.
"Quando a região onde nasce cabelo não tem mais nada, já ficou lisa pela calvície, como se nunca tivesse tido cabelo, a única solução seria um implante."
Ela referia-se à minha testa, que aumentou uns dois centímetros nos últimos 10 anos. "Na parte traseira da sua cabeça, a calvície está adiantada, com uns buracos que só têm hoje um cabelinho bem ralo. Mas ainda dá para tratar. Estou te receitando um remédio que você deve tomar todos os dias. O nome dele é Finasterida."
"Este remédio vai fazer nascer cabelo na minha cabeça de novo?" Não podia ser assim tão fácil, ou não existiriam mais carecas no mundo, imaginei.
"O remédio vai interromper a queda e, provavelmente, vai fazer nascer um pouco de cabelo novo. Temos de experimentar. Funciona em 86% dos pacientes.”
Fácil demais, certo? 86% é uma boa chance de sucesso. Resolvi tirar a última dúvida.
"E esse medicamento tem algum efeito colateral?"
"Depende. Tem muito preconceito com relação a este remédio e muita gente acaba nem tentando o tratamento por causa disso. A libido dos pacientes diminui e alguns homens acham que a medicação os deixa impotentes. Mas fique tranqüilo porque só 1,8% dos pacientes ficam realmente impotentes. É muito raro."
A dermatologista abaixou a cabeça rapidamente e olhou a receita com o nome do medicamento, depois levantou-a lentamente e sorriu. Foi um sorriso de cumplicidade (tentei acreditar que não era de constrangimento), como se ela estivesse dizendo: o que você prefere? Transar ou ter cabelos, a vida é feita de opções e, quando se atinge os 40, as alternativas que se apresentam podem ser assustadoras. Que adianta ganhar cabelo e perder o pau? Nunca fui uma pessoa muito sortuda. Não me espantaria fazer parte dos 1,8% de carecas que perdem a potência enquanto tentam ganhar cabelos. Ser homem aos 40, e cuidar da aparência, é mais difícil do que eu imaginava. A médica deve ter imaginado o que passava pela minha cabeça.
"Calma, o efeito da impotência é muito raro mesmo, mas você vai precisar saber lidar com menos desejo sexual porque isso acontece com maior freqüência."
Não acreditei que estava ouvindo isso da minha dermatologista. Da minha nova dermatologista, uma mulher bonita que eu tinha acabado de conhecer e que, alguns minutos atrás, tinha até imaginado transando comigo. De certa forma, ela já estava me consolando pela futura redução do meu apetite sexual. Será que ela sairia comigo nestas condições? Quero dizer, será que ela sairia comigo sabendo deste, digamos, detalhe? Ela ainda argumentou mais um pouco para me convencer como apenas menos de 2% dos pacientes ficam com o pau mole, que isso nunca aconteceu com ela, digo, com os carecas dela, que eu poderia tentar e que se eu broxasse (ela usou outra palavra mais educada) era só eu parar o medicamento e no dia seguinte tudo estaria bem, ou duro, melhor dizendo.
No dia seguinte? Como assim? Seria mais rápido tomar um Viagra, se acontecesse uma emergência, imaginei. Ainda não me arrisquei no maravilhoso mundo de Viagra. Alguns amigos sim, e me contaram suas experiências, sempre deixando bem claro que eles não precisam da pílula azul para ter uma boa relação sexual. Engraçado como não conheço nenhum homem, de idade nenhuma, que use Viagra porque precisa. Todos usam apenas para turbinar o dito cujo, melhorando o que já é bom, impressionar uma gata que vão trepar pela primeira vez. O escritor Marcelo Rubens Paiva admitiu publicamente que usa Viagra, e também deixou claro que é capaz de transar numa boa sem o remédio, quando quiser. Diz que gosta dos efeitos do remédio, que não se limitam a deixar o pênis ereto, digo, mais duro, diz que muda toda a disposição do homem para o sexo, aumentando o desejo. Bom. Acho que vou provar Viagra e manter uma cartela de sobreaviso, caso o outro remédio (aquele contra a calvície) realmente destrua minha libido. Cara, quando você começa a planejar tomar um remédio para combater o efeito ruim de outro, definitivamente, algo está mudando na sua vida, e provavelmente não é para melhor. Claro que só vou ter certeza disso após experimentar algumas noites de sexo com meu novo amigo, a Finasterida, quem sabe, após uma noite com o outro futuro amigo, o Viagra. A vida era muito mais simples aos 30 anos.
Concordei em tomar o tal remédio indicado pela dermatologista. Todos os dias pela manhã, antes de sair para o trabalho. Eu ainda não estava careca, mas ficaria, como ficaram meu pai, tios e primos. Era o que todo mundo me dizia há anos, uns 15 anos. Decidi que, por via das dúvidas, não tomaria a Finasterida pela manhã nos dias que houvesse alguma chance de transar com alguém. Também não tomaria aos sábados, sempre imprevisíveis, sexualmente falando. Nestes casos tomaria à noite, antes de deitar, se desse tudo errado e eu estivesse em casa sozinho. A médica disse que tudo bem. Mesmo que, de vez em quando, eu ficasse um dia sem tomar, não teria problema, ela explicou. E disse também que a tal perda da libido provavelmente não seria interrompida com minha estratégia. Mesmo assim, resolvi fazer do meu jeito, melhor não arriscar.
10:20 PM



 

Mulheres falando, fofocando, rindo...



(cont.)
Só tinham mulheres lá dentro. Mulheres casadas, gente simples. Duas senhoras usando vestidos floridos, daqueles que senhoras como elas fazem em casa enquanto assistem TV, conversavam desanimadamente. Falavam da filha de uma delas, grávida pela segunda vez de outro homem e ainda solteira.
“Esta não casa mais. Quem vai quer?”, lamentava a mais velha, escondida dentro de um vestido mais escuro abotoado até o pescoço. Enquanto conversavam, uma menina que não devia ter mais de 20 anos sentava-se à frente da mais jovem e cuidava de suas unhas. Vez por outra, dava para perceber que interrompia seu trabalho, tentando disfarçar, para prestar mais atenção na conversa. Outras duas mulheres mais jovens e modernas, sentadas ao lado, falavam do último capítulo da novela, trocavam fofocas sobre famosos, revelavam liquidações ali perto, reclamavam dos namorados. Era a deixa para Gi, que ouvia a tudo, atentamente, enquanto cortava o cabelo de uma mulher bem mais velha:
“Vocês ficam reclamando dos namorados, é? Só aqui tem duas que não conseguem encontrar ninguém por aí”, disse ele, apontando para a manicure, que atendia a senhora de vestido florido, e uma outra garota bem bonita e bem nova, que tinha a tarefa de lavar os cabelos de todo mundo que fosse cortar. “Homem não tá fácil, não”, concluiu o cabeleireiro, com algum ressentimento na voz.
Eu assistia a tudo e pensava o que fazia lá. Sentia falta do meu antigo barbeiro tradicional, sempre falando sobre o tempo ou o jogo de futebol do dia anterior ou, ainda, criticando os políticos e o governo. Sentia falta de outros homens conversando ao meu lado. Dos jornais dobrados nas páginas de esporte. Do cheiro de barbearia. Era minha primeira vez no salão de Gilson, e eu já tinha certeza que nunca mais voltaria.
Isso foi há 23 anos. Eu estava completamente enganado.
8:28 PM