Danilo levava uma vida estável. 10 anos casado e uma amante-coroa no último ano. De repente, perde a mulher, a amante e a faxineira no mesmo dia em que completa 40 anos. Descobre, claro, a tal crise dos 40. Volta a freqüentar a noite. Conhece mulheres estranhas em festas estranhas. Ao mesmo tempo, começa a ter divertidas reflexões sobre seu passado. Era só o começo de uma vida que muda...

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O Ponto de Encontro dos Blogueiros do Brasil


Terça-feira, Março 13, 2012  

Este blog virou o livro DIÁRIO DE UM QUARENTÃO, que acaba de ser lançado

Este blog virou o livro DIÁRIO DE UM QUARENTÃO, que acaba de ser lançado. O livro pode ser comprado online no link abaixo. O blog está tendo continuidade no endereço www.odiariodeumquarentao.wordpress.com.

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8:54 AM



Domingo, Julho 12, 2009  

Três quarentões e uma noite fria de sábado

Acabei ontem no bar da outra noite. Será que vai ser assim o resto da minha vida? Tenho medo de, rápido demais, estar me tornando parte do cenário e dos personagens fixos daquele pub, como todas aquelas quarentonas vestidas de adolescentes. Fazia já uns 40 minutos que estava encostado no balcão, engolindo minhas cervejas. Olhava ao redor, observando e ouvindo aquela diversidade de homens e mulheres ao meu redor, quase todos buscando companhia. Por algumas horas, uma noite, uma vida.
"Eu não quero mais saber de mulher na minha casa", disse um quarentão careca, de cabeça raspada, e camiseta preta que estava em pé ao meu lado.
"Nem pra transar?", respondeu, perguntando, o outro, da mesma idade, camisa branca social amassada, calça de sarja bege (como detesto a cor bege). Careca, igualmente. Mas não tinha cabeça raspada. Era careca apenas na parte central-superior da sua cabeça enorme e branca. Ao redor das orelhas e na parte traseira da cabeça, vigorosos fios negros compunham seu visual acomodado, envelhecido talvez.
"Vocês querem alguma coisa?". Era uma menina, morena, longos cabelos negros. Lábios carnudos, como querem ter hoje todas as estrelas, sensuais. Calça jeans barata, bem justa, marcava sua pequena calcinha, sexy. Camiseta branca ainda mais apertada, com o nome do bar na frente, em vermelho. Sugestivo. Salto alto, elegante, equilibrava-se neles, com uma dificuldade quase comovente, para andar pelo bar com sua bandeja cheia de bebidas. Sorria cordialmente, comercialmente. O quarentão mais careca sorriu sem graça de volta, pouco à vontade. Ela os interrompeu no momento que ele contava ao amigo formal, com detalhes desconcertantes, sua última transa com uma gata de 25 anos que havia conhecido num bar. Ele olhou para o seu copo, quase vazio.
"Quer pedir outra já?", disse para o amigo da camisa social.
O todo-careca encarava a garçonete, sem disfarçar a cara de cafajeste. Na verdade, esforçava-se a cada segundo para parecer um cafajeste - e não um homem de 43 anos, divorciado, solitário na maior parte do tempo, que tinha de acordar cedo na manhã do dia seguinte para buscar a filha quase adolescente na casa da ex-mulher e levá-la à aula de natação.
"Mais duas cervejas, lindinha", decretou ele, se achando. Ela virou-se e caminhou, lentamente, com a competência que só uma mulher com um corpo maravilhoso sobre um par de sapatos altos consegue ter. Caminhou em direção à geladeira, sob o olhar de três quarentões. Seu andar durou pouco, foram segundos, três ou quatro passos, o suficiente para olharmos a sua bunda. Sem compromisso. Coisa de homem, coisa que mulher nenhuma, em tempo algum, vai conseguir entender. Não precisamos desejar uma mulher para virar a cabeça e analisar (esta é a palavra correta: analisar) seu traseiro. É instintivo. Aliás, bela bunda tinha a lindinha. Pequena, mas eficiente. Claro que, no caso dela, nós três a olhávamos com desejo. Não estávamos observando. Estávamos fantasiando, imaginando seu traseiro nu.
"Depende." Ele, o moderno, outra vez, respondendo a pergunta do amigo. "Mas prefiro um motel. Quando acaba é só levantar e ir embora, não tem que agüentar mulher-carente querendo dormir abraçada, te convidando para tomar café da manhã ou querendo dar outra depois que estou sóbrio".
Chegaram as cervejas.
"Por favor." Eu, chamando a lindinha.
"Outra cerveja." Pedi.
Quando cheguei, os dois quarentões já estavam por lá. Falando sobre suas vidas. Como casaram e tiveram filhos. Como um deles, o moderno, separou-se e como lida com isso. Como o outro, o sério, continua casado, embora tenha desejos cada vez mais fortes por outras mulheres. Falavam das mulheres, das suas e das demais, discutiam como suas vidas ficaram tão diferentes, divergentes. Eles que se conhecem desde o colégio e iniciaram sua vida sexual juntos, em alguma zona que nem existe mais há anos.
O bar estava cheio. Gente de todo tipo. Esta é uma das características que mais gosto nos pubs, depois das cervejas e chopes de várias nacionalidades. Gente jovem demais, gente mais velha, gente muito mais velha. Estão todos lá, dividindo o mesmo espaço, curtindo o mesmo rock flash-back, bebendo as mesmas bebidas. Muitas vezes dividindo os mesmos beijos. Sem constrangimentos. Tiozinhos, tigrões, gatinhas, patricinhas, mauricinhos, modernos, gays (uns dois ou três assumidos, que contei em 15 minutos, incluindo um loiro-magrelo que insistiu em me encarar por uns 10 minutos) e suspeitos (outro punhado de homens de várias idades sem uma preferência sexual muito clara). Tudo ali. Disponível. Em oferta. Como naqueles grandes hipermercados, nos quais você pode ir a qualquer hora com a certeza de que vai encontrar o que procura. Seja o que for que você procure. E não há nada de mal nisso. Todos faziam o mesmo, a diferença é que alguns disfarçavam, outros eram diretos, insistentes, inconvenientes.
Do balcão, meus olhos rodavam discretamente pelo bar, indo e vindo, procurando alguma coisa que valesse a pena. Observava as mulheres ao redor, como se olha as vitrines do shopping depois que as lojas já fecharam. Apreciamos. Curtimos. Olhamos os preços. E lembramos que as lojas estão fechadas. E vamos embora, são e salvos. Enquanto isso, eu escutava algumas páginas das vidas de dois homens que poderiam até serem meus amigos.
"Seu chope." Chegou. Ela sorriu para mim. Comercialmente de novo. Um longo gole, enquanto a bunda dela parecia sorrir para mim enquanto sua felizarda proprietária se afastava com uma elegância discreta e sensual incomuns.
Comecei a pensar como a vida muda as pessoas. Aqueles dois ao meu lado, pela conversa, estudaram juntos o colégio e a faculdade. Jogaram futebol na escola. Foram a puteiros juntos. Viajaram juntos. Namoraram suas futuras esposas em épocas parecidas. E, por fim, casaram-se com elas. Tiveram filhos, dois cada um. Seus filhos recomeçaram a saga e já brincam juntos. Mas não há exatamente um final feliz nesta história. Eles não são mais tão parecidos. Nem tão amigos. Não é difícil notar naquele papo de bar momentos constrangedores entre velhos camaradas.
"Se você não gosta mais da sua mulher, por que não se separa de uma vez? Vamos sair, aproveitar a vida...", convidou o moderno, com sinceridade.
"Não. Minha família está em primeiro lugar. Não tenho mais idade para ficar saindo toda noite e paquerando as menininhas, as lindinhas da vida", respondeu o segundo, sem tanta sinceridade, com ironia.
"E o que você está fazendo hoje?"
"É diferente. É só de vez em quando. Não é toda noite. Isso é só para quebrar a monotonia do casamento."
Monotonia do casamento, boa desculpa. Parabéns, pensei comigo. O moderno riu, e não disse nada. O amigo não entenderia. Eu entendi e ri por dentro. Era, mais uma vez, a tal da sociedade projetada para casados que fazia outra vítima.
Percebi que eles desconfiaram da minha engasgada. Ficaram me encarando por instantes. Encarei, ao acaso, uma gordinha que estava na minha frente e sorri para disfarçar. Eles continuaram a conversa.
O casado resolveu se vingar.
"Você acha que colocar uma camiseta preta justa, usar esta calça jeans de bicha (era uma calça moderna, desbotada, com alguns pequenos detalhes desfiados, realmente um pouco exagerada para um homem desta idade) e raspar a cabeça vão fazer de você um garotão outra vez? Você já tem 43 anos, cara".
O golpe foi duro. Eu achei. Esperei pela resposta, ansioso, estava ficando divertido.
"Você pensa o que você quiser de mim. Eu estou bem como estou. E você pode ter certeza que só vai me ver com alguém de novo se for sério, se eu estiver apaixonado. Se não, vou estar por aqui tomando minha cerveja".
Perfeito.
Foda-se o que os outros pensam. Ou fazem. Ou fizeram.
Chamei a lindinha e pedi um chope.
"Oi, está sozinho?"
Olhei para o lado, surpreendido. Era a gordinha, encorajada pelo meu sorriso de disfarce. Perfil clichê. Baixa, talvez menos que 1,60 m, pele clara, bochechas rosadas, cabelos castanhos claros, curtos, gordinhas parecem gostar de cabelos curtos, estilo secretária-moderna. Eu não gosto, faz elas parecerem mais redondas. Sua barriga era bem redonda, aliás. Pernas e braços, fofos, gordos. Unhas bem cuidadas, pintadas de bege claro. Claro. Usava uma calça bege escura, de cintura alta. Sinal de bom senso - a cintura alta. Sinal de conservadorismo - leia-se chatice - o bege. Uma camisa branca, larga e comprida, dividida ao meio por um cinto escuro, completava o visual tradicional. Era muito sorridente, simpática, prestativa. Gordinhas costumam ser assim: prestativas.
"Mais ou menos", respondi ao cumprimento.
Ela fez cara de confusa.
"Como assim?"
Sorriso simpático o dela. Confessei que estava sozinho, mas que ia embora logo. Que estava cansado. Que tinha de acordar cedo no dia seguinte.
“Em pleno domingo? ”
Bem observadora ela. Esqueci que era sábado quando inventei aquela mentira.
"Se você quiser, pode sentar com a gente", sugeriu, enquanto apontava para uma mesa logo atrás, com outras três gorduchas sorridentes. Elas pareciam ter ensaiado aquele momento. Sorriram todas ao mesmo tempo quando ela apontou para a mesa. Queriam parecer simpáticas e prestativas. Todas elas. Todas de bege. Toneladas de banhas protegidas por tecidos beges.
Recusei. Ela foi para sua mesa. E ficou o resto da noite me olhando, enquanto devorava uma porção de almôndegas e, logo depois, um prato cheio de pastéis. Olhava, sorria e mastigava. Não necessariamente nesta ordem.
Antes dela iniciar o ataque à sua terceira porção, de batatas fritas, já posicionada à sua frente, paguei minha bebida e fui para casa. Não se pode ganhar sempre.
7:26 PM



Terça-feira, Julho 07, 2009  

Brinquedinho sexual

(cont.)
"Onde você mora?"
"Alphaville, Residencial 1." Tinha dinheiro, de fato, se é que ainda havia alguma dúvida. Ela me beijou na boca demoradamente e entrou no carro sem olhar para trás. A irmã já estava lá dentro, falando animadamente ao celular. Os dois seguranças já estavam a postos. Não pude deixar de notar como me encaravam, como me examinavam dos pés a cabeça, como se eu fosse um suspeito. Para eles, talvez eu fosse mesmo alguém para se suspeitar. Era quase um bêbado que ia, em alguns minutos, entrar na casa de uma de suas patroas, que por sua vez também tinha bebido bem.
Logo que comecei a dirigir, percebi que os seguranças não iam me seguir. Eu é que devia segui-los, enquanto eles seguiam Alessandra e Claudia. Com muito custo, tentei uma vez ultrapassá-los, tirando o máximo do meu carrinho de mil cilindradas. Fiquei entre eles e o BMW por uns três segundos, tempo suficiente para notar que ali não era meu lugar. Primeiro eles acenderam a luz alta, depois buzinaram insistentemente, depois aceleraram e, de cara feia, quase me jogaram dentro do rio Pinheiros. Voltei à minha posição, pensando que pelo menos eu comeria uma delas dali há pouco, enquanto eles iriam dormir sozinhos ou provavelmente juntos um com o outro num quartinho apertado, decorado apenas com duas camas de solteiro bem estreitas, colchões finos e velhos, roupa de cama surrada, talvez um criado-mudo caindo aos pedaços no meios das camas, onde se acomodavam um cinzeiro cheio de pontas de cigarros, além de um abajur barato. Provavelmente tinha uma TV de 20 polegadas, com antena interna, instalada em cima de uma cadeira de cozinha no meio das camas. Não tive tempo de imaginar o guarda-roupa porque chegamos rápido.
Já passava das três da madrugada. Paramos em frente à uma casa grande, com a frente toda pintada de laranja. Na garagem, um Mercedes-Benz e um jipe importado. Claudia desceu do carro sem olhar para trás - isto é: sem olhar para mim - e entrou direto. Um dos seguranças também desceu do carro e entrou pela porta lateral. Cada uma tinha o seu próprio segurança, logo deduzi. Voltamos a dirigir mais uns dois minutos. Quatro ou cinco quadradas à frente, paramos em frente de uma casa ainda maior e mais bonita. Na garagem, um Peugeot conversível vermelho. Sexy como Alessandra. Ela estacionou seu BMW ao lado dele. O segurança parou em frente à casa, saiu, fechou o carro e desapareceu por uma outra portinha lateral sem dizer nada. Parei meu carrinho atrás do carro dele. Eu entrei pela porta da frente, de mãos dadas com a dona da casa, uma gostosa cheia da grana e louca para fazer sexo comigo. Até que não era um aniversário assim tão ruim.
Entrei na casa de cabeça erguida.
"Não tem ninguém em casa?" Tentava parecer sofisticado enquanto andava pela sala, disfarçando o quanto estava impressionado com o que meus olhos viam.
"Só nós dois." Ela respondeu, propositalmente omitindo o tal segurança, que já devia estar deitado no seu quartinho sem graça. Esperava não encontrá-lo na cozinha no meio da noite. Na verdade, nem sabia se eu estaria ali no meio da noite. Imaginei as possibilidades que eu tinha pela frente:
1) Talvez ela transasse comigo e me mandasse embora uma hora depois.
2) Talvez ela transasse, me deixasse dormir aqui e ainda insistisse para eu passar o domingo com ela e a filha. Nós três almoçando juntos numa churrascaria do tipo rodízio e, depois, assistindo ao futebol ao vivo na Globo.
3) Talvez, por algum motivo, a gente não transasse e eu quisesse ir embora logo.
Voltei a admirar sua casa, enquanto Alessandra havia desaparecido num longo corredor. Parecia que eu estava dentro de uma casa de revista. A sala devia ser maior que o meu apartamento de 80 metros quadrados. Com pé direito alto e sofisticações como tijolos aparentes numa das paredes, móveis de primeira qualidade de uma grife italiana, sofás de couro, entre outros detalhes que não me lembro, era um exagero de bom gosto e requinte. Por mim, eu transaria lá mesmo. Ela voltou e foi logo subindo a escada para o piso superior sem dizer nada. Apenas me olhava e desabotoava sua blusa e tirava sua blusa e atirava sua blusa na escada com delicadeza e abria o sutiã com jeito de safada e atirava o sutiã para cima. Saí correndo atrás dela quando vi seu primeiro peito. No piso de cima, eram quatro ou cinco quartos, todos com as portas fechadas, menos o dela. Sua cama era absurdamente grande, maior que um modelo king size padrão. Deve ter sido feita sob medida. Todos os tecidos combinavam impecavelmente - cortinas, colchas, tapetes, toalhas do banheiro. A janela dava para uma varanda com vista para a piscina.
Pedi licença e fui ao banheiro. Pedi licença? Ela riu do meu pedido, enquanto continuava a se despir. Estava quase no fim. Entrei no banheiro meio constrangido. A banheira de hidromassagem é do tamanho da piscina que nadei no último verão, numa pousada barata de Porto Seguro. Saí do banheiro ainda vestido e, já imaginava, encontrei ela totalmente nua, deitada em sua cama, com uma taça de champanhe na mão. Havia outra taça no meu criado-mudo. Meu criado-mudo? Notei então que havia um pequeno frigo-bar prateado no canto do quarto. O champanhe deve ter vindo de lá. Reparei no rótulo. Fiquei curioso de saber o que estava bebendo. Champanhe francesa. Veuve Clicquot. Eu conhecia de nome. Uma excentricidade que devia custar perto dos 100 dólares a garrafa. Uma música suave e romântica tocava, mas não consegui localizar o aparelho de som, nem os alto-falantes. Deviam ser embutidos em alguma coisa.
Em pé, em frente à cama, tirei minha roupa. Fingindo estar calmo. Ela se divertia. Excitava-se, enquanto dava pequenos goles em sua bebida servida numa elegante taça de cristal. Ela queria que eu fizesse exatamente aquilo. Tirei tudo em um ou dois minutos e me deitei ao lado dela. Eu também estava bastante excitado e ela fez questão de demonstrar que percebeu isso. Tomei um longo gole da Veuve Clicquot imaginando que talvez nunca mais provasse daquela bebida. Nos abraçamos. Nos beijamos. Nos olhamos. Nos lambemos. Não demorou muito para estarmos trepando, com pouca delicadeza, mas com muita sensualidade, muita provocação. Alessandra é o tipo de mulher que faz o que quer na cama, e faz tudo que um homem quer que uma mulher faça. Não é preciso pedir ou sugerir nada. Não é preciso direcionar a cabeça dela para nenhum lugar. Ela vai sozinha. Ela chupa bem. Do jeito certo e no tempo adequado. E faz isso de olhos abertos, olhando o seu parceiro nos olhos e sorrindo, parecendo gostar de ter um pau duro dentro da boca. Não se esconde atrás dos cabelos. Não está fazendo aquilo pelo cara. Faz por ela.
Transamos, descansamos nos acariciando e conversando, transamos, falamos um pouco sobre nossas vidas, transamos novamente. Quando paramos já eram quase sete horas da manhã. Eu estava moído, mas desconfio que ela agüentaria mais um pouco. Dormimos, enfim, como se fôssemos um casal normal. Quando abri os olhos, de manhã, estava pelado e descoberto na cama de Alessandra. Ela estava vestida e em pé, ao meu lado. Estava séria e não havia nem sombra da mulher sensual de algumas horas atrás. Eram quase 11 horas do domingo e eu ainda sentia o gosto de bebida na boca. Mesmo assim, ela sorriu e me deu um beijo suave nos lábios, sem língua. Sem batom.
"Está na hora de você ir. Minha filha vai voltar daqui há pouco." Era hora de o brinquedinho sexual ir embora.
11:18 PM



 

Loira, separada e sem rodeios

(cont.)
Uma morena estonteante, de saia curta, desfilava ao meu lado sem dar um único passo. Era como uma vitrine de uma loja cara: todo mundo olhava, comentava e desejava. Mas ninguém levava. Eu fazia parte de todo mundo. O problema (sempre invento um problema, reconheço) era que eu tinha medo dela ser bonita demais para mim. Este talvez seja um novo sintoma dos 40 anos: uma baita de uma insegurança. Decidi esperar, esperei algo acontecer. A morena me olhar insistentemente, ficar mais bêbada, tropeçar em mim. Quem sabe cair em cima de mim. Qualquer coisa. Esperei. Esperei. E algo aconteceu, algo sempre acontece. Um cara fortão do outro lado do bar veio para o meu lado, pediu licença para mim e começou a conversar com a morena, que, apesar de surpresa, retribuiu com um sorriso abusadamente doce. Não há nenhum exagero nesta expressão. Dei um último gole na cerveja número cinco e pedi a sexta.
Estava espremido num canto do balcão, tentando beber minha cerveja alemã. Foi quando reparei em outra mulher, sozinha. Um pouco mais à frente no balcão. Elegante e simpática, tomava um chope, enquanto dançava discretamente, olhando diretamente para a banda. Estava sozinha, mas não tinha cara de quem ficava sozinha num bar. Parecia tímida, pouco à vontade naquele ambiente, mas simpática. Tinha cabelos loiros, longos, volumosos, bem tratados. Vestia uma calça jeans daquelas propositalmente desbotadas. Daquelas que se paga muito mais para parecerem velhas e desgastadas. Usava uma blusa branca, sexy, transparente, de grife cara. Deveria ser a mulher mais elegante do bar, embora não fosse a mais bonita. Alta, para uma mulher. Tinha um corpo legal. Imaginei que tivesse seus 30 anos. Tomei um gole caprichado, e dei uma olhada atenta em volta. Tinha muito homem ao redor, olhando para ela enquanto seguravam suas bebidas. Olhando insistentemente para ela e seu corpo bem ajeitado em sua calça cara e moderna. Eu precisava ser rápido e eficiente, como foi o fortão com a minha morena.
Encarei seu rosto com curiosidade e esperança e descobri um sorriso endereçado a mim. Foi quando notei uma dupla de solteirões-quarentões aproximando-se. E ela continuava a sorrir para mim. Não era um sorriso abusadamente doce, ok, mas era agradável, era como se ela me dissesse "gostei de você".
"Oi, você está sozinha?" Fui rápido desta vez. Méritos da cerveja número seis, claro. Foi a única pergunta que me ocorreu e sei que foi uma pergunta ridícula. Mas achei melhor não perder tempo e ser eficiente desta vez.
"Estou com minha irmã. Ela encontrou um amigo antigo e está conversando com ele...", ela falou apontando para uma bolsa sem dona ao lado da sua bolsa.
Adorei sua voz, o jeito que ela me olhava enquanto falava. Conversamos muito. Alessandra tinha 35 anos, bem mais do que parecia. Era separada, como são quase todas nesta idade. Tinha uma filha de quatro anos. Sua irmã era casada e estava acompanhando-a enquanto o marido viajava. Alessandra era empresária de alguma coisa relacionada a moda. Ela falava de viagens, lugares, comportamentos, e percebi logo que tudo girava em torno de dinheiro para ela. Mas parece que seu interesse por mim estava acima disso. Insistia em me olhar diretamente nos olhos o tempo todo. Queria saber porque eu estava sozinho. Falei sobre Guilherme, mas desconfio que ela não acreditou e não se importou.
Um homem razoavelmente esperto logo percebe quando uma mulher quer a gente. Se for uma mulher direta, que não faça joguinhos, ela nos olha nos olhos, faz perguntas pessoais, fica virada para a gente, sorri, presta atenção no que falamos. Ajuda o cara quando ele não tem o que falar, dizendo algo que retome a conversa. Não olha, nunca, para os caras do lado, que ficam esperando se você vai se dar bem ou se vai ser despachado para a lua a qualquer instante. Ela fez, rigorosamente, tudo isso, além de alguns elogios estratégicos.
Logo estávamos nos beijando como dois adolescentes. Nos sentamos numa mesa mais discreta, no fundo do bar. Estava escuro lá. Sentamos próximos a outro casal recém-formado na noite. O cara estava com a mão dentro da blusa de uma loira dessas que se faz nas farmácias. Eu também tinha um peito na mão naquele momento. Fui discreto, era um peito relativamente firme, com o bico duro, de bom tamanho. Enchi a mão com ele e ainda sobrava um pouco, a medida certa. Tinha a queda natural e sexy que um bom seio deve ter. Perfeito para a idade de Alessandra. Eu não sabia o que fazer, não com o peito, é claro. Com Alessandra inteira. Ainda não tinha uma opinião muito formada sobre ela. Uma garota deliciosa. Beijava bem, de um jeito sem vergonha, sem freios. Ficava muito arrepiada com uma simples mordida no pescoço. Ela gostava de todas aquelas provocações, e as incentivavas. Enquanto pensava no próximo passo (e tentava decidir se queria dar este próximo passo), ela me convidou para dormir na casa dela. Sem rodeios.
"E sua filha?". Eu não estava interessado na filha dela. Tentava apenas ganhar tempo para descobrir o que ainda me incomodava ali.
"Está com a babá, na casa da minha irmã!". Ela tinha pensado em tudo. Alessandra saiu de casa para buscar alguém para dormir com ela e eu fui o escolhido. Embora seja excitante esta conclusão, às vezes sou meio conservador demais, devem ser os 40 anos fazendo pressão. E também sou tímido. Talvez muito tímido, embora o problema, se é que havia um problema naquela situação, não era minha timidez. Preferia que ela não tivesse planejado nada, que tivesse me conhecido e gostado de mim, e só depois considerasse fazer sexo naquela noite. A idéia de que ela primeiro decidiu transar, se preparou para isso e depois, apenas depois, me conheceu me parecia masculina demais. E eu não gostava.
Pagamos nossa conta e saímos. Eu ainda não tinha respondido sua proposta. Sua irmã já estava de volta. Bonita. Ainda mais elegante do que ela, mas sem batom. Suspeito. Não me pareceu que ela voltava de uma conversa com um velho amigo. Claudia era seu nome. Enquanto eu pedia meu carro ao manobrista, Claudia pegava seu celular na bolsa e ligava para alguém. Alessandra ainda tentava me convencer a dormir com ela. Eu estava com tesão, é claro que estava com tesão. Nem sei direito porque ainda estava em dúvida, mas alguma coisa indecifrável até aquele momento não estava se encaixando direito. O carro delas chegou rápido e comecei a entender o que me incomodava: era um BMW preto, daqueles maiores e mais caros. Daqueles que valem mais do que muitas casas boas.
Já havia percebido que ela tinha muito dinheiro, mesmo assim fiquei impressionado. Também fiquei constrangido, meu carro popular chegaria a qualquer momento. Antes, porém, parou atrás do BMW um carro japonês, não sei de que marca. Outro modelo caro, importado. Dentro dele estava um segurança truculento e mal encarado. O motorista que trouxe o BMW é o outro segurança, ainda mais truculento, que logo sentou-se ao seu lado, deixando o BMW vazio, esperando pelas patroas. Era isso que me incomodava nela: o excesso de dinheiro.
Discretamente, Alessandra segurou meu pau duro por dois segundos, com força. Durante este tempo, olhou nos meus olhos, mantendo seu olhar malicioso.
"Você me segue?" Não gostei da cara da irmã dela, não gostei dos dois seguranças nos seguindo, não gostei dela ter tanto dinheiro. Mas gostei do jeito que ela segurou meu pau duro. E fui. Não foi uma decisão racional, como nunca é comigo depois da meia-noite. Especialmente quando bebo e alguém segura meu pau assim tão descaradamente.
(cont.)
11:14 PM



 

De volta aos "embalos" maduros de sábado à noite?

Sábado resolvi aceitar um novo convite de Guilherme e o acompanhei a um bar de solteiros. Na verdade, acho que fui atrás da minha identidade, ver o que havia de solteiro dentro de mim. Ver no que eu havia me transformado nos últimos anos. Quem sabe, até, reviver os bons tempos vividos até meus 30 anos, quando bastava entrar num bar animado para sair acompanhado. Hoje, 10 anos mais velho, sou um homem de 40. Homens aos 40 são mais interessantes, de acordo com muitas mulheres. Mulheres reais, algumas até bem bonitas, que eu conheço. Tem até livro que ensina as mulheres de 35 a conhecerem caras interessantes de 40 e casarem-se com eles para terem filhos e serem felizes para sempre. Estava lá na vitrine da livraria do shopping outro dia: Como encontrar um marido depois dos 35. É promissor: mulheres de 35 estão gastando seu dinheiro em livros que as ensinam a conhecer caras como eu. Não considerei relevante o fato do livro estar em promoção.
Escolhemos um pub tradicional cujo público é formado basicamente por homens e mulheres de 30 a 40 anos. Aquele aonde - eu supunha - as mulheres vão atrás dos caras legais e solteiros de 40. Quando chegamos, já havia bastante gente espalhada pelo balcão, algumas mesas estavam ocupadas. Vi caras conhecidas. Reconheci personagens. Homens e mulheres que já estavam na noite há 10 anos, quando eu vivia por bares como esses. Eles estavam ali de novo. Ou será que ainda estavam ali? Senti-me superior por estar retornando a este mundo apenas naquela noite, supondo que todos ali, com exceção de mim, passaram a última década naquele balcão, bebendo, paquerando, fumando e desperdiçando suas vidas. Sozinhos, à espera de companhia fácil e rápida. Mais ou menos como fazemos ao ir ao McDonalds matar a fome. Reparei que algumas dessas pessoas surpreenderam-se ao me reconhecerem, ao mesmo tempo em que fingiam não me reconhecer. Será que me acharam velho? Segurei-me para não conversar com algumas daquelas quarentonas que, tenho certeza, lembravam de mim. A maioria fumava seus cigarros Marlboro enquanto bebia uísque nacional em copo longo ou cerveja em garrafinhas long neck transparentes. Tinham seus 37, 38, 40, 45 anos, talvez. Vestiam-se como se tivessem 20. Calças modernas, justas demais para aquela idade, cintura baixa demais. Decotes. Decotes enormes por todos os lados pareciam estar competindo entre si para ver quem chamava mais a atenção dos homens disponíveis que rondavam como cães farejadores em volta das mesas.
Não queria perguntar se estavam encalhadas, se haviam casado e estavam separadas, ou se continuavam casadas e aquela noite era apenas uma escapulida. Queria saber se me achavam mais velho. Quero dizer, muito mais velho. Queria saber, simplesmente, se eu ainda podia me considerar uma opção viável para as mulheres da noite, como elas. Não tive coragem de conversar com ninguém e corri para o balcão. Guilherme já havia se enroscado com uma velha amiga. Uma dessas amigas que vivem pela noite e acabamos comendo depois das 3h se bebermos um pouco antes.
Fiquei no canto do balcão, tentando me tornar invisível por alguns momentos, até que tivesse tempo de virar alguns copos. Sempre gostei dos cantos dos balcões. Geralmente, permitem que a gente veja todo mundo e, ao mesmo tempo, não nos expõem demais. No filme Encontros e Desencontros, o personagem Bob Harris, interpretado por Bill Murray, passou alguns dias no Japão a trabalho. Ele é um ator veterano fazendo fotos para o comercial de um uísque em Tóquio. À noite, quando estava de folga, passava a maior parte do tempo sozinho, bêbado, encostado no canto do balcão do luxuoso bar do Hotel Park Hyatt Tokyo, onde estava hospedado. Sempre no mesmo bar, sempre naquele canto, noite após noite. Numa dessas noites, o garçom lhe perguntou por que ele estava sempre no mesmo canto, inclusive quando havia espaço em outros locais. Murray explicou que bebia muito e se ficasse bêbado e caísse ali ninguém perceberia. Seria uma queda absolutamente discreta. Eu ainda estava na metade da primeira caneca de cerveja quando lembrei desta história e pensei que era uma boa idéia.
Terminei a primeira cerveja alemã. Cara. Era mais barato beber num pub 30 anos atrás. Pedi a segunda. E, afinal, não havia nada mais para se fazer ali, além de beber e parecer sozinho para todos ao redor. Na terceira já não me importava com o que os outros podiam estar pensando e notei que Guilherme beijava apaixonadamente sua amiga. O bar também já estava mais cheio, o que me deixou mais à vontade. Paquerar, quem sabe. Para que os solteiros vão à pubs, afinal? Poucos lá realmente prestavam atenção à música. Uma banda com quatro integrantes tocava sucessos pop/rock dos anos 80.
Na minha frente, havia uma mesa com quatro amigas. Elas falavam pouco entre si e olhavam muito à sua volta. Típico desespero de solteironas que passaram a assustadora barreira dos 30 sem nunca fisgar um marido. Para muitas delas, é aquele momento que o despertador biológico dispara e a busca por um marido e filhos (não necessariamente nesta ordem) se acelera. Para outras, é só vontade de transar e convencer o parceiro para dormir o resto da noite com elas. Elas sabem que ele provavelmente vai desaparecer depois do sexo. Mas tentam aproveitar aquele breve instante para sentirem-se normais, como suas amigas que namoram ou estão casadas. Querem dormir junto, acordar junto, tomar café da manhã junto e, quem sabe até, dar uma última trepada antes da inevitável despedida final. Não sei exatamente a qual grupo pertencem as quatro à minha frente. Elas cruzavam o bar inteiro com o olhar, observavam homens e mulheres e de vez em quando se aproximavam dos ouvidos da amiga mais próxima e faziam um rápido comentário, quase sempre com um sorriso maldoso. Venenoso, como só as mulheres sem homem conseguem. Tenho a impressão que comentavam mais das mulheres do que dos homens, embora estivessem claramente em busca dos homens. A ouvinte respondia com um sorriso de concordância sem dizer nada. Linguagem quase ensaiada, cifrada.
Cerveja número quatro. Bar lotado e mulheres bonitas por perto. Diversas. Diferentes. Gostosas. Vulgares, sim. E daí? Parei de pensar na vida e comecei a pensar nelas. Naquela noite. Uma noite após a outra, é o que eu sempre costumava pensar por volta da cerveja número quatro nos bons tempos da década passada. Em outras palavras, isso queria dizer mais ou menos o seguinte: quem eu vou comer hoje? Pelo menos era assim que funcionava. Eu deixava o ideal de lado e ia atrás do possível.
A bebida ajudava a pensar melhor. Eu realmente sempre acreditei nisso durante minhas atividades noturnas. Tinha de resolver uma coisa de cada vez, começando daquela noite. Ainda havia dois grupos de mulheres solteiras ao meu lado. Havia também alguns caras e mulheres sozinhos por perto, o que me deixava menos constrangido. Eles eram mais velhos do que eu e menos bonitos e fumavam muito mais, embora ainda não tivessem tomado quatro cervejas. Era bom não ser o único sem companhia num sábado à noite. Muita gente já estava dançando na pequena pista de dança, entre as mesas, nos corredores. Alguns casais que tinha acabado de se conhecer já esboçavam os primeiros beijos enquanto dançavam e riam. Riam e dançavam, mas queriam apenas se beijar. Eles, pensando em sexo fácil. Elas, sonhando com um namorado. Sonhos e frustrações que se repetiam, quase sem mudanças, sábado após sábado.
(cont.)
11:11 PM



Quinta-feira, Julho 02, 2009  

Transar ou ter cabelos?

A médica abriu a porta e olhou direto para mim na sala de espera. Eu era o único homem lá, o que fazia crescer meu desconforto. Ao meu lado, duas mulheres mais velhas discutiam quem deveria casar com a mocinha da novela. Algumas coisas são sempre iguais nos finais de qualquer novela. Uma delas é que todos os personagens bons se casam ou arrumam um parceiro legal no final. Não gosto desses finais exatamente porque não é o que acontece na vida real, não com todo mundo. Por que o mocinho da história, que sofreu a história toda, só fica feliz quando conquista a mulher mais bonita no último capítulo? Será que solteiros ou separados ou divorciados também não podem ser felizes para sempre? Como sabemos quando é o último capítulo da vida real? A tal doutora era uma mulher alta, bonita, com longos cabelos castanhos. Usava um avental branco, parcialmente fechado, por cima da roupa. Atraente, arriscaria dizer que tinha uns 30 anos.
"Sou eu."
Anunciei automaticamente, rindo de mim mesmo em seguida. Entrei na sala e fechei a porta. Ela já me esperava em sua mesa, fazendo cara de médica. Sua sala era pequena e discreta, com poucos toques pessoais. Acho que ela não queria expor sua intimidade para nós, os pacientes. Os móveis eram todos de madeira cerejeira e pareciam novos. Sua mesa estava quase vazia e brilhava. Havia apenas o telefone branco, impecavelmente limpo, um porta-canetas de acrílico transparente (com uma caneta vermelha, uma azul e uma preta, todas novas, e uns dois ou três lápis quase inteiros e cuidadosamente apontados), um bloco de receitas, algumas folhas de papel sulfite em branco, um carimbo com o nome da médica e seu número de registro e um livro qualquer sobre medicina no canto. Ela devia ser excepcionalmente metódica e organizada. Além da mesa e das cadeiras, havia também uma estante com livros, alguns enfeites, uma bonequinha de porcelana pequena e um porta-retrato bem no centro. Era uma foto dela, vestindo um elegante sobretudo preto, calça preta, sapatos pretos e até um gorro preto de lã. Estava abraçada carinhosamente a um homem de boa aparência que devia ter mais ou menos a mesma idade e estava vestido no mesmo estilo. Ao fundo dava para se ver o que deveria ser um castelo europeu. Pela aliança no dedo dela, o cara devia ser seu marido. Não pude deixar de notar a calvície acentuada que tomava conta de sua cabeça.
A Dra. Isabela Napolinna foi recomendada por um amigo como uma dermatologista extremamente competente, especialista em calvície. "Se tiver jeito, ela dá um jeito", disse ele olhando fixamente para minha cabeça. Nunca havia imaginado que dermatologistas também cuidavam de homens carecas. No meu caso, de homens tornando-se careca.
"Em que posso ajudar?", perguntou, com um jeito meio burocrático, depois que me acomodei e nos cumprimentamos. Eu podia ter dito na lata que queria saber se ainda era possível salvar meus cabelos e, quem sabe, recuperar uma parte dos que se foram nos últimos anos. Não tive coragem. Tentei fingir que era menos careca do que realmente era.
"Bom, é a primeira vez que venho numa dermatologista (verdade, embora fosse uma informação desnecessária neste contexto). Foi um amigo que me recomendou seu nome (idem). É que eu tenho tendência para perder os cabelos, como se ela não pudesse notar isso por si mesma com uma simples olhada (notei ela observando minhas entradas na cabeça nesta hora) e eu queria ver com você se existe alguma coisa que eu posso fazer para diminuir isso". Terminei a frase com um sorriso envergonhado, num tom mais baixo do que comecei, como se estivesse fingindo que não tinha dito o que tinha acabado de dizer.
"Você está perdendo cabelo desde os seus 20 anos mais ou menos. Devia ter procurado um tratamento médico há muito mais tempo."
Ela falou, sorrindo outra vez, enquanto caminhava na direção da minha cabeça. Parou atrás de mim e ficou, com as pontas dos dedos, examinando a calvície adiantada que ameaçava tomar conta da minha cabeça. Passaram-se alguns segundos. Pareceram longos minutos.
"Esta parte aqui na frente, onde você tem estas entradas, não tem mais jeito." Tudo bem, pensei, não foi por causa disso que vim aqui.
"Aqui atrás, onde você tem estes buracos, dá para resolver, sim", ela continou.
Buracos? Será que ela estava exagerando? Ela me examinou por mais alguns segundos e logo depois, para meu alívio, voltou para a cadeira e me explicou, calmamente, como é que dava para resolver, enquanto preenchia uma receita. Não pude deixar de lembrar da careca do marido dela, enquanto me perguntava porque ela não resolveu os buracos do próprio parceiro.
"Quando a região onde nasce cabelo não tem mais nada, já ficou lisa pela calvície, como se nunca tivesse tido cabelo, a única solução seria um implante."
Ela referia-se à minha testa, que aumentou uns dois centímetros nos últimos 10 anos. "Na parte traseira da sua cabeça, a calvície está adiantada, com uns buracos que só têm hoje um cabelinho bem ralo. Mas ainda dá para tratar. Estou te receitando um remédio que você deve tomar todos os dias. O nome dele é Finasterida."
"Este remédio vai fazer nascer cabelo na minha cabeça de novo?" Não podia ser assim tão fácil, ou não existiriam mais carecas no mundo, imaginei.
"O remédio vai interromper a queda e, provavelmente, vai fazer nascer um pouco de cabelo novo. Temos de experimentar. Funciona em 86% dos pacientes.”
Fácil demais, certo? 86% é uma boa chance de sucesso. Resolvi tirar a última dúvida.
"E esse medicamento tem algum efeito colateral?"
"Depende. Tem muito preconceito com relação a este remédio e muita gente acaba nem tentando o tratamento por causa disso. A libido dos pacientes diminui e alguns homens acham que a medicação os deixa impotentes. Mas fique tranqüilo porque só 1,8% dos pacientes ficam realmente impotentes. É muito raro."
A dermatologista abaixou a cabeça rapidamente e olhou a receita com o nome do medicamento, depois levantou-a lentamente e sorriu. Foi um sorriso de cumplicidade (tentei acreditar que não era de constrangimento), como se ela estivesse dizendo: o que você prefere? Transar ou ter cabelos, a vida é feita de opções e, quando se atinge os 40, as alternativas que se apresentam podem ser assustadoras. Que adianta ganhar cabelo e perder o pau? Nunca fui uma pessoa muito sortuda. Não me espantaria fazer parte dos 1,8% de carecas que perdem a potência enquanto tentam ganhar cabelos. Ser homem aos 40, e cuidar da aparência, é mais difícil do que eu imaginava. A médica deve ter imaginado o que passava pela minha cabeça.
"Calma, o efeito da impotência é muito raro mesmo, mas você vai precisar saber lidar com menos desejo sexual porque isso acontece com maior freqüência."
Não acreditei que estava ouvindo isso da minha dermatologista. Da minha nova dermatologista, uma mulher bonita que eu tinha acabado de conhecer e que, alguns minutos atrás, tinha até imaginado transando comigo. De certa forma, ela já estava me consolando pela futura redução do meu apetite sexual. Será que ela sairia comigo nestas condições? Quero dizer, será que ela sairia comigo sabendo deste, digamos, detalhe? Ela ainda argumentou mais um pouco para me convencer como apenas menos de 2% dos pacientes ficam com o pau mole, que isso nunca aconteceu com ela, digo, com os carecas dela, que eu poderia tentar e que se eu broxasse (ela usou outra palavra mais educada) era só eu parar o medicamento e no dia seguinte tudo estaria bem, ou duro, melhor dizendo.
No dia seguinte? Como assim? Seria mais rápido tomar um Viagra, se acontecesse uma emergência, imaginei. Ainda não me arrisquei no maravilhoso mundo de Viagra. Alguns amigos sim, e me contaram suas experiências, sempre deixando bem claro que eles não precisam da pílula azul para ter uma boa relação sexual. Engraçado como não conheço nenhum homem, de idade nenhuma, que use Viagra porque precisa. Todos usam apenas para turbinar o dito cujo, melhorando o que já é bom, impressionar uma gata que vão trepar pela primeira vez. O escritor Marcelo Rubens Paiva admitiu publicamente que usa Viagra, e também deixou claro que é capaz de transar numa boa sem o remédio, quando quiser. Diz que gosta dos efeitos do remédio, que não se limitam a deixar o pênis ereto, digo, mais duro, diz que muda toda a disposição do homem para o sexo, aumentando o desejo. Bom. Acho que vou provar Viagra e manter uma cartela de sobreaviso, caso o outro remédio (aquele contra a calvície) realmente destrua minha libido. Cara, quando você começa a planejar tomar um remédio para combater o efeito ruim de outro, definitivamente, algo está mudando na sua vida, e provavelmente não é para melhor. Claro que só vou ter certeza disso após experimentar algumas noites de sexo com meu novo amigo, a Finasterida, quem sabe, após uma noite com o outro futuro amigo, o Viagra. A vida era muito mais simples aos 30 anos.
Concordei em tomar o tal remédio indicado pela dermatologista. Todos os dias pela manhã, antes de sair para o trabalho. Eu ainda não estava careca, mas ficaria, como ficaram meu pai, tios e primos. Era o que todo mundo me dizia há anos, uns 15 anos. Decidi que, por via das dúvidas, não tomaria a Finasterida pela manhã nos dias que houvesse alguma chance de transar com alguém. Também não tomaria aos sábados, sempre imprevisíveis, sexualmente falando. Nestes casos tomaria à noite, antes de deitar, se desse tudo errado e eu estivesse em casa sozinho. A médica disse que tudo bem. Mesmo que, de vez em quando, eu ficasse um dia sem tomar, não teria problema, ela explicou. E disse também que a tal perda da libido provavelmente não seria interrompida com minha estratégia. Mesmo assim, resolvi fazer do meu jeito, melhor não arriscar.
10:20 PM



 

Mulheres falando, fofocando, rindo...



(cont.)
Só tinham mulheres lá dentro. Mulheres casadas, gente simples. Duas senhoras usando vestidos floridos, daqueles que senhoras como elas fazem em casa enquanto assistem TV, conversavam desanimadamente. Falavam da filha de uma delas, grávida pela segunda vez de outro homem e ainda solteira.
“Esta não casa mais. Quem vai quer?”, lamentava a mais velha, escondida dentro de um vestido mais escuro abotoado até o pescoço. Enquanto conversavam, uma menina que não devia ter mais de 20 anos sentava-se à frente da mais jovem e cuidava de suas unhas. Vez por outra, dava para perceber que interrompia seu trabalho, tentando disfarçar, para prestar mais atenção na conversa. Outras duas mulheres mais jovens e modernas, sentadas ao lado, falavam do último capítulo da novela, trocavam fofocas sobre famosos, revelavam liquidações ali perto, reclamavam dos namorados. Era a deixa para Gi, que ouvia a tudo, atentamente, enquanto cortava o cabelo de uma mulher bem mais velha:
“Vocês ficam reclamando dos namorados, é? Só aqui tem duas que não conseguem encontrar ninguém por aí”, disse ele, apontando para a manicure, que atendia a senhora de vestido florido, e uma outra garota bem bonita e bem nova, que tinha a tarefa de lavar os cabelos de todo mundo que fosse cortar. “Homem não tá fácil, não”, concluiu o cabeleireiro, com algum ressentimento na voz.
Eu assistia a tudo e pensava o que fazia lá. Sentia falta do meu antigo barbeiro tradicional, sempre falando sobre o tempo ou o jogo de futebol do dia anterior ou, ainda, criticando os políticos e o governo. Sentia falta de outros homens conversando ao meu lado. Dos jornais dobrados nas páginas de esporte. Do cheiro de barbearia. Era minha primeira vez no salão de Gilson, e eu já tinha certeza que nunca mais voltaria.
Isso foi há 23 anos. Eu estava completamente enganado.
8:28 PM



Quarta-feira, Julho 01, 2009  

Eu e meu barbeiro gay



Na primeira vez que o vi logo entendi porque as mulheres falavam dele com um tom de voz que confundia admiração e desejo com decepção e um pouco de esperança. Gilson era realmente bonito, engraçado, elegante, moderno e gay em cada detalhe do seu corpo jovem e bem cuidado. Estávamos em 1986, ano em que 9 ½ semanas de amor fazia sucesso nos cinemas brasileiros, exibindo um Mickey Rourke aos 30 anos ainda em plena forma e no auge da carreira. Gi, como todos o chamavam, tinha cabelos iguais aos do astro norte-americano, como faziam então muitos brasileiros, gays ou não. Tinha 21 anos, assim como eu. Me recebeu com curiosidade e cordialidade, como tratava todos os seus clientes, especialmente aqueles indicados por amigos. Ivone, secretária na empresa onde eu trabalhava, foi quem me indicou o salão dele.
“Você vai adorar. Ele é super legal e corta super bem o cabelo”, ela tinha prometido, exagerando com o super, como sempre fazia em qualquer conversa. “E é um puta gato”, concluiu gargalhando. Não entendi. Perguntei. Ela explicou. E entendi. Na verdade, entendi sem ficar surpreso, sempre achei que todos os cabeleireiros fossem gays. Nunca havia cortado o cabelo num cabeleireiro, apenas em barbeiros convencionais, aqueles em que só entram mulheres acompanhando algum homem ou levando o filho. Sempre achei os barbeiros parecidos com os motoristas de taxi, pela necessidade e prazer que eles parecem ter de conversar com estranhos. Começam sempre perguntando se você acha que vai chover. Se já estiver chovendo, querem saber quando o tempo vai melhorar. Depois que você responde, eles também respondem e emendam logo outros assuntos. Falam de futebol, reclamam dos políticos, citam alguma notícia grotesca que saiu no jornal daquele dia.
Cheguei 10 minutos antes do horário porque Gi só trabalha com hora marcada, regalias de ser uma espécie de estrela em ascendência na região. Observei ao redor enquanto aguardava minha vez. Ele atendia numa sala espaçosa, no primeiro andar de um desses prédios comerciais velhos e pequenos que encontramos por aí. A sala de espera era apertada e continha um filtro, daqueles antigos, feitos de barro, um sofá gasto de três lugares cheio de furos e uma mesa lateral repleta de revistas com fofocas sobre celebridades. Ao lado do filtro, uma mesinha de madeira, como um criado-mudo, estava coberta por bebidas alcoólicas de segunda categoria, como licores de vários sabores, um gim nacional e um conhaque barato. Estavam lá para quem quisesse se servir. Haviam também duas cadeiras de madeira colocadas, simetricamente, de frente para o sofá. As dimensões e a decoração da sala eram constrangedoras, tornavam obrigatório um certo convívio, algum tipo de interação, uma vez que era quase impossível não cruzar o olhar com as demais pessoas. O pior é que a sala estava cheia de olhares constrangidos desviando-se, procurando-se discretamente, estudando-se.
(cont.)
1:06 AM



Segunda-feira, Junho 29, 2009  

A vizinha feliz e a vizinha infeliz



No início dos anos 90, eu morava num conjunto de apartamentos na periferia de São Paulo, com uma variedade curiosa de personagens (vizinhos, visitas de vizinhos, zeladores de cada prédio, adolescentes, muitos adolescentes insuportáveis). No meu andar, o sétimo, moravam Bete e Glenda, duas donas-de-casa casadas (acho que essas duas qualificações são quase redundantes, mas não tenho certeza), com filhos e situação financeira parecida. Ambas já tinham quitado com dificuldade seu pequeno apartamento, possuíam carro popular usado, passavam as férias escolares em Santos, mandavam seus filhos para colégios particulares. As duas tinham 40 anos na época. As duas tinham maridos gordos e carecas, como a maioria tem nesta idade.
Bete era gorda também, daquelas que engordam por puro descuido. Simplesmente comia demais. Tinha, fácil, seus 85 quilos, pessimamente distribuídos num corpo com não mais de 1,60 m de altura. Ela ria de suas banhas debochadamente, como se não fossem dela, geralmente com a boca cheia (uma de suas manias gastronômicas prediletas era carregar bombons Sonho de Valsa nos bolsos por onde quer que fosse). Com a pele branca, cabelos mal tratados e o rosto marcado pelas rugas, Bete não era do tipo sensual. Vestia-se mal. Vestia-se como uma senhora conservadora no esplendor dos seus 60 anos. Agia assim. Não praticava atividade esportiva, detestava andar, ia à praia apenas por causa dos filhos e do marido, que por sua vez ia só por causa dos filhos, um casal de gordinhos com 8 e 10 anos, mimados e divertidos como costumam ser os gordinhos. Também não era do tipo culto ou bem informado. Só lia fofoca de novela no jornal, só assistia novela e os programas de domingo à tarde na TV. Adorava vídeo-cassetada. Não leu mais do que três ou quatro livros em toda a sua vida, e a maioria foi de auto-ajuda, na linha do “só é gordo quem quer” ou “emagreça comendo”. Apesar de dezenas de regimes e formas mirabolantes para perder peso, você não viraria a cabeça para olhar para ela. O mais importante sobre Bete, contudo, é que ela era irritantemente feliz vivendo sua vida desse jeito. Ela escolheu a vida que levava.
Devo ter falado com ela umas seis ou sete vezes naquele espaço de alguns anos que convivemos juntos no mesmo andar. Podia ser de manhã ou tarde da noite, chovendo, frio. Podia ser um domingo à tarde ou uma segunda-feira pela manhã. Bete sempre tinha um sorriso para distribuir, um “bom dia” sincero para dizer e um último bombom no bolso para acompanhá-la.
Glenda era outro tipo de mulher. Muito vaidosa, mais alta e com o peso certo, fazia as unhas todos os sábados pela manhã. Ia ao cabeleireiro regularmente, mudava sempre seu cabelo, de cor, de comprimento, de formato, copiando o estilo moderno que se vê toda noite na novela das 8. Vestia-se no dia-a-dia como uma garota de 30 anos: blusas coladas ao corpo que valorizavam seus seios (naturais) de bom tamanho e ainda no lugar que deveriam estar, calças estupidamente agarradas. Tinha pernas grossas e um olhar sexy capaz de seduzir qualquer homem. Usava perfumes caros, de bom gosto, cuidava da pele com cremes sofisticados que ajudavam a acentuar o seu ar jovial. Era bonita, atraente, gostosa e desejada. Foi uma das mulheres mais desejáveis que conheci em toda minha vida. Entenda bem: ela era bem bonita, mas não a mais bonita que vi ou tive, era inteligente, mas não era nenhum gênio, vestia-se com sensualidade porque seu corpo ajudava, mas não era nenhuma especialista em moda, nem tinha dinheiro pra exageros nesta área. Mas o conjunto de qualidades dela a faziam especial.
Tentei mais de uma vez transar com ela, montei estratégias mirabolantes para atraí-la para dentro de casa. Faltei ao trabalho algumas vezes para colocar em prática essas artimanhas que nunca funcionaram. Era decepcionante não ser capaz de seduzir uma mulher mais velha que transava com aquele marido gordo e careca. E eu ali, perto dos meus 25 anos, magro, com bastante cabelo e disponível. Muito disponível.
Uma vez inventei um problema na máquina de lavar roupa e bati na porta dela, pedindo ajuda. Ela disse que não entendia daquilo e me sugeriu que pedisse ajuda para Bete, que era melhor dona-de-casa. Foi comigo até a porta de Bete, sem me consultar, tocou a campainha e esperou comigo até que ela atendesse a campainha. Sacana, claro. Só entrou de volta em seu apartamento quando eu e Bete entramos no meu. Até hoje acho que ela fez de propósito, mas nunca tive coragem de perguntar. Mas Glenda não era exatamente uma santa e nós transamos um dia. Não quando eu tentei. Foi quando ela quis. Mulher segura, que sabe que é gostosa e desejada, é foda, faz sexo com quem quer na hora que quer, e do jeito que quer, o que não deixa de ser interessante.
Foi num dia de semana, final de tarde. Seu marido, eu sabia, nunca voltava para casa antes das 8 ou 9 da noite e os filhos costumavam estar na casa do vizinho do 56 nesta hora, comendo alguma coisa ou jogando vídeo game. Eu esperava pelo elevador no hall de entrada. Ela tinha chegado do supermercado com vários pacotes, e me ofereci para ajudá-la. Ela aceitou sorrindo e balançando os seios. Glenda trajava um vestidinho curto de malha, estampado, do tipo barato e sexy que se encontra em qualquer loja de departamento. Estava sem sutiã, o que significava que dava para ver o formato dos seus peitos, embora o tecido não fosse transparente. Na entrada do apartamento, enquanto ela procurava a chave na bolsa, reparei que os bicos dos seus seios estavam arrepiados.
Ela me pediu para levar as compras até a cozinha. Levei. Me convidou para sentar. Sentei, educadamente. Ofereceu-me uma cerveja. Recusei, educadamente outra vez, mas esperando pela insistência dela, que não veio. Acabei mudando de idéia e aceitando três segundos depois. Homem é muito bobo. Eu, especialmente, não sou nada bom em fazer o tipo difícil. Até porque não sou um tipo difícil.
Conversávamos sobre algumas bobagens do condomínio, enquanto bebíamos. Não parecia que ia acontecer alguma coisa entre nós, mas ela me olhava de um jeito diferente naquele dia, prendia mais o olhar, sorria mais e me tocava quando falava algo mais engraçado, como se estivesse estrategicamente buscando minha cumplicidade, me fazia perguntas pessoais, ficou a maior parte do tempo sentada ao meu lado, com as pernas cruzadas, viradas na minha direção. Estava deliciosamente sensual.
"Acho que eu não devia ter carregado todas as compras sozinha. Fiquei com uma dor aqui nas costas." Ela disse isso séria, com uma expressão de dor, apontando para algum lugar em suas costas. Não tive tempo de pensar em muita coisa. Meu instinto de macho respondeu antes que eu pudesse avaliar o que ela queria dizer com aquilo.
"Se você quiser, eu posso te fazer uma massagem no lugar que está doendo." Eu disse isso tentando esconder um sorriso meio idiota, meio autoconfiante demais. Mas foi como entrar com as duas pernas de uma vez num quarto escuro. Qualquer coisa poderia acontecer, inclusive dar de cara com a parede.
"Você faz? É exatamente isso o que estou precisando hoje." Não tentei entender o que ela estava precisando exatamente, não naquele momento. Ela foi logo se virando no sofá, ainda sentada, me apontando onde massagear. Sou bom nisso, quero dizer, em massagem. Enquanto massageava suas costas, ouvi alguns dos gemidos mais excitantes da minha vida.
"Você fez algum curso de massagem? Sua massagem é uma delícia." Eu já sabia disso, mas fiz cara de surpreso, mulher gosta de homem humilde, que parece não ter noção de suas principais qualidades.
"Sério mesmo? Não fiz curso nenhum". Desta vez, ela sorriu maliciosamente.
"Mas assim é ruim. Posso deitar para você fazer melhor?"
"Claro, se você quiser." Uau! Tentei parecer frio e indiferente, enquanto levantava, dando lugar para ela deitar no sofá. Tentei agir como se fosse um desses bonitões que faz massagens em mulheres gostosas todos os dias e aquilo era rotina para mim. Foi quando ela se levantou, desviou-se de mim e saiu correndo para o quarto, gritando e rindo. Foi quando fiquei em pé, parado, ouvindo, pensando e fazendo cara de mané, enquanto olhava para o sofá vazio.
"Então vem aqui." Antes de ir, enchi o copo de cerveja até a boca mais uma vez e tomei tudo quase num gole. Enchi o copo de novo e fui encontrá-la. Quando cheguei ao quarto, ela estava deitada na cama, de costas, pedindo para eu começar a massagem pelos seus pés. A janela do quarto estava fechada, com as cortinas brancas parcialmente abertas. Ela havia acendido uma vela, o que proporcionava uma iluminação agradável e sugestiva ao quarto. Quase esqueci: Glenda estava totalmente nua. Fiquei pensando em algo engraçado ou sexy para dizer relacionado ao fato dela estar nua. Podia ser uma piada. Podia ser um elogio. Podia fingir surpresa (na verdade, eu estava surpreso). Por alguns rápidos instantes, confesso que cogitei até mesmo de simplesmente agradecê-la por aquilo. Por estar nua na minha frente, me chamando. Consegui recuperar o bom senso antes disso e não disse nada. Não consegui pensar em nada que parecesse inteligente ou engraçado ou sexy e preferi não correr riscos. Sentei ao lado dela e comecei a massageá-la nos pés, como ela havia mandado, enquanto admirava seu corpo. Meu pau, duro, incomodava por dentro da calça. Antes que eu pudesse planejar meus próximos passos para transformar aquela massagem numa trepada maravilhosa, ela me mostrou de novo quem estava no comando.
"Você não vai tirar a roupa, não? Não é justo..." Ela nem se virou para dizer isso. Era uma ordem, simples assim. Sabia que eu faria o que ela queria. De novo, travei. Não conseguia pensar ou dizer nada minimamente inteligente e continuei de boca fechada, enquanto me despia aos seus pés.
Para encurtar a história, comi Glenda muitas vezes naquela tarde. Além de um corpo maravilhoso, tão atraente como o de qualquer garota de 25 anos, ela tinha a experiência e a ousadia que todo homem espera de uma mulher de qualquer idade, ainda mais aos 40. Ela sabia sorrir e olhar para um homem enquanto transava. Apenas o seu olhar já me excitava. Não era do tipo que fechava os olhos e só abria depois de gozar. Queria ver o que estava fazendo, queria ver a cara da pessoa com quem estava fazendo.
Conheço mulheres que dariam qualquer coisa para serem como Glenda, mesmo que elas não admitam isso. Mas Glenda não era feliz. Reclamava da idade, da vida, das coisas que não tinha feito ainda, das frustrações acumuladas. Lamentava pelo que passou, pelo que não fez e pelo que acreditava nunca faria. Glenda não era feliz porque não vivia a vida que um dia imaginara viver aos 40. E Glenda nunca mais transou comigo, embora sempre me olhasse com aquele sorriso sacana quando me encontrava pelo condomínio.
11:10 PM



Sábado, Maio 16, 2009  

A gladiadora



Por que algumas mulheres sentem-se idiotas o tempo todo? Ou: por que algumas mulheres gostam de se sentir idiotas? Ou ainda: por que elas pensam que nós pensamos que elas pensam que são idiotas? Eu sei. É confuso. É raciocínio feminino. Passei por uma livraria hoje e reparei num livro que deveria ser a bíblia das (pobres) solteiras de 30 anos. O nome dele: “Homens gostam de mulheres que gostam de sim mesmas”. Sugestivo. Enquanto segurava o livro e sorria para o título, lembrei de Tarci. Naquele momento, ela estava com seu terapeuta tentando descobrir porque era idiota ou se apenas se achava idiota ou se a culpa de tudo era mesmo minha. Provavelmente, optaria pela terceira alternativa, como acontecia quase sempre.
“Você concorda?”. Ainda com o livro na mão, com um sorriso feito no rosto e a lembrança em Tarci, virei para o lado e quase caí para trás. Encontrei ali uma dessas mulheronas que a gente vê mesmo sem querer ver. Alta, bonita, sexy, toda de preto. Parecia uma gladiadora dessas que a gente encontra nos piores filmes de ficção científica, especialista em triturar homens indefesos no café da manhã.
“Claro. E você?”, consegui responder, quase engasgando. Ela, ao contrário, estava segura, tranqüila, com um sorriso maroto congelado nos lábios.
“Se eu concordo?”, ela falou sem desmontar o sorriso.
“Não. Você gosta de si mesma?”, perguntei. Provoquei. Atirei. Foi nessa hora, aliás, que notei seus peitos. Cacete. Ela tinha exatamente os peitos que uma mulher como ela deveria ter. Grandes, morenos (sim, um belo decote), aparentemente duros, vivos, deliciosos. É claro que ela gostava de si mesma. Se eu fosse ela, estaria completamente apaixonada por mim e por meus peitões.
“Quer descobrir?”. Esta foi a resposta dela, pouco antes de colocar um papel com seu telefone em cima do tal livro “Homens gostam de mulheres que gostam de si mesmas", virar as costas e ir embora.
7:11 PM